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segunda-feira, 22 de março de 2010

Terra está recuando no litoral da Paraíba


Em alguns pontos já se percebe o recuo efetivo da linha litorânea. Mas isso não fica nítido onde existem instalações de habitações humanas. A erosão é contínua. 

A invasão das águas do oceano sobre trechos do litoral paraibano – a exemplo das praias do Seixas e do Poço e em Baía da Traição – causando transtornos a moradores das regiões, vez por outra ocorre, principalmente em épocas de maré alta, causando preocupação, como se verificou no início deste mês de março. No entanto, o geógrafo, pesquisador e professor da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), Paulo Rosa, defende uma situação, no mínimo, curiosa: a de que a terra é que está recuando e não o mar avançando. "Em alguns pontos, já se percebe o recuo efetivo da linha litorânea. Mas isso fica mais nítido aonde existe instalação de habitações humanas, concorrendo para que o litoral sofra erosão. A linha litorânea está recuando em função da ausência de sedimentos", disse ele, acrescentando já ter levado o problema ao conhecimento das autoridades, das quais não recebeu resposta, mas espera que ainda venham tratá-lo como prioridade.

O professor Paulo Rosa lembrou que chegou a elaborar um projeto, denominado de "Vulnerabilidade e prevenção de desastres ambientais e sociais na Paraíba", que levou ao conhecimento de autoridades locais e até federais. "Porém, não obtivemos respostas. Mesmo assim, tenho maximizado a informação na mídia, através da qual não tem existido o feedback esperado das autoridades, mas já se percebe forte preocupação por parte da população", disse ele.

 
Relevo da PB é dotado de duas grandes feições

Ao explicar de que forma o fenômeno estaria acontecendo, o pesquisador da UFPB afirmou que "a formação do relevo é uma contingência constante, pois o modelado é dinâmico, ora se forma ora se deforma. O relevo, aqui no território paraibano, é dotado de duas grandes feições: planalto (cristalino: Borborema, e/ou sedimentar, no caso da zona costeira). A característica fundamental do planalto é que, nesse lugar, há perda de material (sedimentos como areias, argilas e siltes), por conta das intempéries; e planícies, que ganham material oriundo dos planaltos. Porém, quando não há mais deposição, as planícies também podem perder materiais. No tocante à questão das planícies costeiras no litoral paraibano, principalmente no litoral ao sul da foz do Rio Paraíba, há um balanço negativo na questão deposicional. Acreditamos que o material oriundo do continente está ficando retido nas represas, por isso esse material não está mais sendo depositado no mar".

A percepção do problema ocorreu no final da década passada. "Por época da estiagem, entre 1998/1999, fotografamos o sistema Gramame/Mamuaba e percebemos que o nível d'água baixo deixou à vista uma grande quantidade de sedimentos ali depositados. Nos anos seguintes, as planícies do Seixas estavam perdendo materiais não apenas nas praias, mas a linha litorânea na planície também estava cedendo, em função da ação marinha. Essa situação ficou nítida com a supressão, pelo mar, da Palhoça do Seixas e outras situações similares naquelas planícies", relatou o pesquisador.
Segundo o professor, "o avanço e o recuo das áreas costeiras indicam uma relação constante. É um balanço no que se refere à questão de deposição ou retirada de sedimentos. As planícies, na costa paraibana, são relativamente recentes. Normalmente, quando a deposição é elevada, têm-se feições como as restingas de Cabedelo, do Gramame e também os pontões, como a Ponta de Lucena.

 
"Essa situação requer uma pesquisa com mais intensidade"

Paulo Rosa não tem ideia do tamanho do recuo da terra. "Essa situação requer uma pesquisa com mais intensidade, na coleta de dados. Para que isso seja feito", segundo ele, "são necessários recursos financeiros. O projeto que encaminhamos para o Ministério da Ciência e Tecnologia, infelizmente, não progrediu, e os dados que dispomos ainda não são significativos para que possamos apresentar diagnósticos com as quantidades efetivas, a não ser em relação a algumas edificações, que estão indo abaixo por conta da ação do mar". Para que se tente resolver o fenômeno, o pesquisador comentou que "é necessário o amadurecimento nas pesquisas e simulações, para que possamos ter ideia do comportamento do lugar no passado e, também, no futuro. Essa situação somente será possível com maior amadurecimento intelectual e político por parte dos cientistas e dos gestores".

O professor admitiu que, pelas observações já realizadas, a tendência desse fenômeno é continuar. "Percebemos que os recifes são vestígios de que o continente já esteve ali, naquele lugar, antes, depois cedeu à ação do mar. Hoje, as praias e as restingas são lugares construídos relativamente recente. Por isso, são muito sensíveis e sua ocupação é complexa". E lembrou que já houve consequências negativas por causa disso. "Há muitas edificações que ruíram, por conta da ação marinha, e outras estão, sintomaticamente, em zona de alto risco, já apresentando possibilidades de desabamento. As mais gritantes são as que estão na planície da Ponta do Seixas, Poço além de outras, que já estão sofrendo fortes agressões, por conta da chegada do mar".

Questionado sobre a possibilidade do aquecimento global estar, de alguma forma, contribuindo para essa situação na costa paraibana, o professor Paulo Rosa admitiu não ter trabalhado nessa vertente. "Isso requer simulações futuras, com supercomputadores, e não dispomos de material nesse sentido", justificou ele.

 

Fonte: jornal A União por Guilherme Cabral
http://www.auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=34723&Itemid=74


 


 


 


 

Um comentário:

Thiago Sarmento disse...

O que se pode fazer quanto a isso? há alguma forma de impedir esse recuo?
Sabemos que aquela faixa ali perto da Ponta dos Seixas já está parcialmente comprometida. Agora só falta o mar levar o que é dele de uma vez. Esta semana eu irei na Penha ver com meus próprios olhos como está a situação por lá.