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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Rio Jaguaribe agoniza


Cerca de 13km de águas são sufocadas pelas mais de 50 mil famílias que vivem às margens do leito degradando o local.

 Antônio Luiz de França mora na área ribeirinha ribeirinha há três décadas e se indigna.  
Foto: Fabyana Mota/ON/D.A Press

O Rio Jaguaribe não é mais o mesmo. A cada dia, morre um pouquinho. Esgotos e lixo têm sido depositados em seu leito sem cerimônias pelos moradores das áreas ribeirinhas. E eles acabam sendo vítimas, sofrendo as consequências do ato irresponsável. Os alagamentos deixam as comunidades, onde vivem cerca de 50 mil famílias, em situação de risco. O mau cheiro incômoda. Roedores e insetos se multiplicam, invadem as casas, provocam doenças. O catador de recicláveis Antônio Luiz de França, 49, mora há mais de três décadas às margens do Rio Jaguaribe, no Bairro São José.

Assim como outros moradores antigos do local, ele tem boas lembranças de uma época em que o rio era limpo. "Aqui tinha peixe e até camarão. A água era tão transparente que dava para ver a areia. Agora, a gente não pesca mais. Está poluído por causa dos esgotos", lamenta. A situação, segundo ele, está menos crítica em razão da limpeza que a Prefeitura de João Pessoa vem realizando ao longo dos 13,5 quilômetros do Jaguaribe, mas o problema parece estar longe de ser solucionado. Nas comunidades cortadas pelo rio, as cerca de 50 mil famílias não contam com ligações regulares de esgotos. Por isso, todos os dejetos são lançados diretamente nas águas. Os moradores contam que existe esgotamento sanitário no Bairro São José, mas nem todos fizeram a ligação na rede e permanecem poluindo o meio ambiente.

Esse mesmo ecosistema que corta a cidade também enfrenta um outro problema: o lixo, que vem destruindo o que resta do rio. "Está tudo muito sujo. Jogam sofá, geladeira. A gente está com medo quando o inverno chegar porque com a chuva, a água não tem para onde ir e alaga tudo", relata o pescador Carlos Antônio Felipe da Silva, 49. O pior, segundo ele, é que o resíduos produzidos diariamente são jogados pela própria comunidade. "E pensar que eu bebi até água daí", recorda. O geógrafo Paulo Rosa, professor de Planejamento e Gestão Geo Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) contou que, há alguns anos, observou peixes com grandes lesões no dorso causadas pela ação degeneradora de produtos químicos na água, a exemplo de sabões e detergentes. Segundo ele, além de poluir, estes produtos desestabilizam a química da água.

Quem conheceu o rio nos bons tempos sofre ao ver as condições do local nos dias atuais. "É uma sensação devastadora. Está cada vez mais poluído e as pessoas não têm consciência de que estão prejudicando a elas mesmas quando jogam lixo. Tomei banho nessas águas, pesquei, brinquei. É triste ver o rio nesse estado", lamenta José Gonçalves da Silva, 42, porteiro que morou 14 anos no Bairro São José. A mãe dele ainda vive no local.

Aos 68 anos, a dona de casa Severina Gecina da Conceição garante que lavou muita roupa no rio. "A água era limpinha. Uma maravilha. Hoje está essa tristeza. Queria que voltasse a ser como antes", disse. Entre as histórias tristes lembradas pelos moradores está a de uma criança que morreu depois de engolir água do rio. "A criança tinha uns 7 anos de idade. Entrou no rio, tomou banho e, sem querer, acabou bebendo da água. Pouco tempo depois ficou doente e morreu. Todo mundo diz que foi por causa da poluição", conta o relojoeiro Nivaldo da Silva, 47. Em outro trecho do Jaguaribe, na altura do Cristo Redentor, os relatos são semelhantes e preocupantes para quem a degradação de um patrimônio natural da cidade. O esgoto de um condomínio está correndo todo para o rio e tem dia que o cheiro desagradável incomoda demais.

Fonte: Lucilene Meireles do Jornal O Norte

 

Rio sofreu com desvios e agressões

Despejos de esgoto é muito comum em todo o trajeto do rio.
Foto: Fabyana Mota/ON/D.A Press

O Rio Jaguaribe corta toda a cidade de João Pessoa e é um dos mais importantes do estado. Mas, as construções desordenadas às suas margens destruíram a mata ciliar. A falta da vegetação torna o local inapropriado para se viver. "Não é seguro morar nessa região. É uma área inundável. Por isso, ocorrem os alagamentos no período chuvoso", resaltou a diretora técnica da Sudema, Ana Lúcia Espínola.

O trecho mais crítico, segundo a gestora da Sudema, é próximo ao Manaíra Shopping, no bairro de Manaíra. Para o geógrafo Paulo Rosa, existem três pontos considerados preocupantes: a Mata do Buraquinho, onde o rio foi barrado para um açude, que hoje é sem serventia; o desvio para o rio Mandacaru - hoje o rio não tem mais ligação com o leito antigo por conta das edificações do um empreendimento na área; e a foz, onde o mangue está agonizando. A nascente do rio fica no conjunto Esplanada a aproximadamente a 43 metros de altitude. Desce e recebe as águas das Três Lagoas, nas imediações da BR-230. Depois continua descendo e chega à Mata do Buraquinho onde há um barramento na altitude de 15 metros que quebra a energia topográfica. Até aí, desceu 28 metros. Ele explica que a partir desse momento, o rio adquire novo início de energia topográfica, ficando mais fraco em termos de energia cinética. Isso diminui sua força de trabalho erosivo.Ao sair da Mata do Buraquinho, o rio foi retificado até onde recebe seu principal afluente, o Rio Timbó, na cota de 5 metros. "Daí em diante, desce muito lento, sem forças erosivas, pois já se encontra na planície costeira, no sopé da falésia inativa. Hoje podemos anunciar que sua outra referência está ao final da comunidade São José e nas proximidades do Manaíra Shopping.

Nesse ponto, o rio foi desviado para o Rio Mandacaru, obra para diminuir os mosquitos da febre amarela", relatou Paulo Rosa. É aí que começa o processo de assoreamento. "Hoje não é mais rio e sim várias poças de água parada, como pode ser visto junto a dois hipermercados ", explicou. Segundo o geógrafo, esse antigo Baixo Jaguaribe, hoje totalmente sem força, não consegue mais romper o cordão litorâneo que se interpõe entre a área alagada do mangue e o mar.

É um lugar que abriga apenas a água da chuva, necessitando que os moradores das comunidades façam a abertura do cordão litorâneo para haver o escoamento da água acumulada. Nesse momento, o mangue volta a receber a troca de água com o mar. "Pode-se então anunciar que aquele mangue está definhando. E, por isso, a especulação imobiliária está agindo como agente de pressão constante, o que força ainda mais para que o mangue se acabe", constatou. "Aparentemente, é um rio, mas está tão maltratado que não sabemos qual será a consequência desse desprezo em relação a morfologia dessa bacia num futuro não muito distante. A função do rio não é apenas levar água para os níveis mais inferiores, mas também conduzir sedimentos e estes vão formando as planícies costeiras, as praias", disse.

Fonte: Lucilene Meireles do Jornal O Norte

 

Reflorestamento como saída sustentável

População ribeirinha tem convívio há mais de 30 anos com a poluição.
Foto: Fabyana Mota/ON/D.A Press
 
O problema do Rio Jaguaribe é antigo e vem sendo discutido por especialistas e órgãos ligados ao meio ambiente. O saneamento básico é apontado com uma das possíveis soluções e a ocupação irregular da comunidade deveria respeitar uma distância superior a 30 metros da margem para que a água e a mata ciliar fossem preservadas. "As pessoas carecem de educação ambiental", observou a presidente da Associação Paraibana de Amigos da Natureza (Apan), Socorro Fernandes.

Ela afirma que encontra-se de tudo no rio. "A Cagepa joga esgotos sem nenhum controle e é uma das grandes poluidoras", denuncia. Por sua vez, o órgão responsável pela gestão do esgotamento sanitário e abastecimento d'água se defende, garantindo que os esgotos só são despejados no rio quando é necessário realizar alguma intervenção e não há outra alternativa para desviar os dejetos. Para Socorro Fernandes, a falta de educação é um dos grandes problemas. "Sem contar que há pouca preocupação dos gestores. Há alguma limpeza e dragagem, mas se não houver educação das pessoas, a questão se torna recorrente", analisa.

Um dos indicadores de que a água está poluída são os aguapés que crescem sobre a água. "Em pouca quantidade, elas colaboram para a limpeza do rio. Quando se multiplicam de forma desordenada, não deixam a água respirar. Não há fotossíntese. Algumas algas também costumam se proliferar. A presença delas significa que há muitas bactérias no local responsáveis por provocar diarreia, dores de cabeça e problemas de pele", ressaltou.

A ambientalista acredita que se houvesse redução dos afluentes domésticos, certamente a situação melhoraria. Para revitalizar a área, a solução seria evitar que esgotos fossem despejados no rio, e providenciar o reflorestamento da mata ciliar. Esse processo iria regularizar a temperatura. Um trabalho de educação ambiental com a população ribeirinha também iria fortalecer esta ação. "O Jaguaribe pode voltar a ser como antes. Para isso, é necessária uma parceria entre os órgãos gestores e as comunidades. Ao limpar o rio, é preciso tentar fazer com que as pessoas continuem conservando", disse.

Com o reflorestamento, o rio iria se recuperar, a longo prazo, e se tornaria saudável. "Se não fizermos isso agora, as gerações futuras não terão água potável. Se tomarmos atitudes enquanto ainda temos nossos rios, os peixes retornarão e a floresta vai se recuperar", declarou Socorro Fernandes. Para Ana Lúcia Espínola, diretora técnica da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), se nada for feito, a fauna e flora vão desaparecer. "Será a extinção das espécies", declarou.

Fonte: Lucilene Meireles do Jornal O Norte

 

2 comentários:

Paulo Romero disse...

Olá,adorei o blog,pois moro em João pessoa,e conheço de perto essa realidade...é uma grande falta d respeito,o que fazem com o rio jaguaribe,pois,a nossa cidade é considerada a 2ª,mais verde do mundo e não se resolve o problema da poluição dos rios;além do jaguaribe,existe o sanhauá,o cuiá,o rio cabelo,em mangabeira e todos pedem socorro...

Eu tenho um blog,sobre a preservação da nossa caatinga(pois sou nascido no cariri paraibano)e a criação racional de abelhas nativas,para fins de preservação das espécies.

www.urucueabelhasnativas.blogspot.com

Um abraço.
Paulo Romero.
Meliponário Braz.
João Pessoa,PB.

paulo rosa disse...

Paulo Romero visitei seu site e achei interessante a produção, vou visitá-lo por lá, pois acredito que no Cariri não há seca e sim estiagem, pois a seca é um conceito que empobrece demais o lugar.

Quanto a reportagem sobre o rio Jaguaribe o que mais me deixa preocupado é com a falta de comprometimento da população com as coisas naturais.