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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Estudo Sobre Dano Ambiental Gerado por Atividades Mineradoras no Município de Itabaiana – PB - Brasil







Todo estudo rigoroso significa uma abordagem analítica e esta se pauta sobre o nível de aprofundamento e, fundamentalmente, sobre o balizamento do referencial teórico, pois só assim há a passagem da análise elementar para a análise sistemática. Na análise elementar a observação normalmente é assistemática e a referência se torna mais conceitual. Já na análise sistemática a observação é metódica, seguida de  coleta de dados, pois "só as provas dizem verdadeiramente a respeito" (Aristóteles, p. 29). As coletas são quantidades que se transformam em qualidade enquanto conceito e argumento, por isso a necessidade de um maior rigor. Mesmo assim, jamais se conseguirá determinar os desígnios da dinâmica contida na natureza, "pois não se pode prever os resultados que uma determinada forma de relevo irá apresentar, em certo lugar e certa época, a não ser em termos de probabilidade" (Christofoletti, 1981: 114).
Para a realização desse estudo mais acurado optamos por um trabalho de natureza científica em que o rigor deve ser estabelecido apriorísticamente, ou seja, até na concepção do encaminhamento do próprio trabalho e do documento enviado pelo Sr. Promotor, ressaltamos o objeto da designação "dano ambiental provocado pela extração de areia no rio Paraíba" o que nos serviu para a elaboração do problema em estudo partindo deste enunciado, o qual transformamos em enunciado interrogativo: Quais os danos ambientais acarretados pela extração de areia no Rio Paraíba no município de Itabaiana - PB? [...]








sábado, 1 de março de 2008

Imobiliária Júlio Ventura - Laudo Pericial

LAUDO PERICIAL

À Imobiliária Júlio Ventura Ltda, sucessora da CIA JÚLIO VENTURA AGRICULTURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO


Joaquim Eccio Gonçalves bezerra
Geógrafo / Pós-Engenheiro Urbano
CREA 7704/D - CE

Apresentação

A Autora, Imobiliária Júlio Ventura Ltda, alega prejuízos quanto ao imóvel constituído de terreno de marinha, de formato poligonal, situado no litoral desta cidade, cujas características e confrontações encontram-se apresentadas devidamente, na fundamentação deste Laudo Pericial.

Os prejuízos aos quais se refere à autora são de natureza métrica, caracterizada pela perda de área do imóvel em questão.

No decorrer deste Laudo Pericial serão apresentados Memoriais Descritivos, Planilhas de Cálculo, e outros elementos de informação Cartográfica, Fotos e Mapas, obtidas em campo em datas variadas.

Introdução

De acordo com o conceito de Terreno de Marinha constante do DECRETO - LEI Nº 9.760, DE 15 DE SETEMBRO DE 1946, SEÇÃO II - Da CONCEITUAÇÃO Art. 2º e 3º, e conforme as informações obtidas na própria Secretaria do Patrimônio da União - SPU, a área em questão encontra-se situada no litoral da cidade de Fortaleza.

Art. 2º - São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros, medidos horizontalmente, para a parte da terra, da posição da linha da preamar médio de 1831:
a) os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se façam sentir a influência das marés;
b) os que contornam as ilhas situadas em zona onde se façam sentir a influência das marés.

Parágrafo único.Para os efeitos deste artigo a influência das marés é caracterizada pela oscilação periódica de 5 (cinco) centímetros pela menos do nível das águas, que ocorra em qualquer época do ano.

Art. 3º - São terrenos acrescidos de marinha, os que se tiverem formado, natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimento aos terrenos de marinha.
Fundamentado no exposto acima e considerando que o local no Município de Fortaleza – Praia de Iracema - onde estão situados os terrenos trata-se de área cuja ocupação é antiga e bem definida sob o ponto de vista de urbanização, e que o Departamento de Patrimônio da União - SPU já dispõe de informações consolidadas em seu acervo, como plantas cadastrais e memoriais descritivos, também constantes neste Laudo. Apresentamos a seguir a fundamentação deste documento a favor da autora.


Fundamentação

Para melhor entendimento e elucidação dos fatos e compreensão do objeto que gerou a necessidade deste Laudo Pericial, procuramos adotar o método cronológico do processo de urbanização, ou seja, procuramos identificar as plantas e matriculas, conforme existente no Serviço de Patrimônio da União - SPU, com suas datas originais, anterior ao desmonte do muro limite entre as duas propriedades em questão e consideradas como oficiais e pertencentes ao acervo de registro da instituição, conforme segue:



FIGURA Nº 01: Planta correspondente ao terreno de propriedade da Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA, conforme registro no Departamento do Patrimônio da União – SPU.


Apresentamos em destaque, vermelho, ao Sul, parte do perímetro, ângulo fazendo uma deflexão para direita de 173º 10’ 00” e respectivas distâncias, da área da CALTECH ENGENHARIA LTDA, que faz limites com a área de domínio e posse da CIA JÚLIO VENTURA AGRICULTURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO.

Conforme planta acima apresentada, FIGURA Nº 01, e memorial descritivo das matrículas 72.390 e 73.938 da Secretaria do patrimônio da União – SPU o polígono apresenta área total de 662,17 m2.

Os limites da área encontravam-se materializados, em destaque o limite ao Sul, com muro conforme pode ser observado na imagem ao lado e nas imagens aéreas obtidas da cobertura aerofotgráfica de setembro de 2000, pertencentes ao acervo cartográfico e aerofotográfico da Prefeitura Municipal de Fortaleza e nas imagens contidas no Guia Digital de Fortaleza, versão 2.0. (conforme FIGURA Nº 02) Entretanto, ocorreu o desmonte deste muro pela Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA.



FIGURA Nº 02


Através de levantamentos de campo por Topografia Clássica, foram efetuadas várias medidas com o propósito de estabelecer um critério de avaliação e mensuração entre a planta e foto antiga e a área e o muro como se apresentam no momento atual, conforme representação abaixo, FIGURA Nº 03, planta com o perímetro como se apresenta em campo, atualmente:



FIGURA Nº 03


Apresentamos em destaque, vermelho, ao Sul, parte do perímetro, no qual fica evidente que foi executado sem levar em consideração a deflexão para direita de 173º 10’ 00” e respectivas distâncias, pela Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA, quando da execução e reposição do muro confinante e limite com a posse da CIA JÚLIO VENTURA AGRICULTURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO.

Para melhor visualização e identificação do limite, como também propiciar uma melhor analogia entre o muro existente anteriormente e o muro soerguido pela Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA Foi executado uma cobertura aerofotgráfica recente da área, novembro de 2003. FIGURA Nº 04.



FIGURA Nº 04


Com o auxilio da imagem aérea acima apresentada (FIGURA Nº 04) fica evidente que o muro, no limite Sul, atualmente apresenta-se de forma alinhada e retilínea.

Conforme a planta apresentada, FIGURA Nº 01, e Memorial Descritivo das matrículas 72.390 e 73.938 da Secretaria do patrimônio da União – SPU o polígono apresenta área total de 662,17 m2. Já no Levantamento Topográfico de como se apresenta a área no momento, FIGURA Nº 03, apresenta-se com uma área de 671,37 m2. Ocorrendo uma diferença, entre as duas plantas, de 9,20 m2.

Com o propósito de melhor visualização da diferenciação de áreas entre as plantas, foi efetuada a justaposição entre as duas plantas, conforme demonstrado na FIGURA Nº 05.



FIGURA Nº 05


Destacamos que além do adentramento no limite Sul, por parte da Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA, foi possível constatar um avanço, também no limite Sul, no canto que confronta com a Travessa Camocim, apresentando este adentramento na razão de 30 cm, com perda para a Imobiliária Júlio Ventura Ltda, conforme ilustração fotográfica abaixo, obtida com data anterior a derrubada do muro limite e após a reconstrução.



Figura Nº 06 - Fortaleza – 17 de junho de 2003.



Figura Nº 07 - Fortaleza – 13 de novembro de 2003


Conclusão

A área de pose da CALTECH ENGENHARIA LTDA, imóvel resultante da unificação dos RIP’s 1389.0001731-06 e 1389.0001780-94, matrículas 72.390 e 73.938 da Gerência Regional do Patrimônio da União no Ceará – SPU avançou no sentido Sul, sendo acrescida de 9,20 m2 da área de pose da Imobiliária Júlio Ventura Ltda, sucessora da CIA JÚLIO VENTURA AGRICULTURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO.

Ficando evidente que o muro não foi reposto e executado levando em consideração a deflexão para direita de 173º 10’ 00” e respectivas distâncias, pela Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA, quando da execução e reposição do muro confinante e limite Sul.

No caso de posterior solicitação de medições topográficas ou de execução das evidências relacionadas acima, o Perito se propõe a acompanhar os serviços, em fiscalização. Está à disposição também para quaisquer esclarecimentos, inclusive em Audiência.

Os Assistentes Técnicos acompanharam os trabalhos, foram consultados sobre o texto final do Laudo e concordam com o mesmo.



Fortaleza 18, de novembro de 2003.


Nomeado Perito Joaquim Eccio Gonçalves Bezerra, Geógrafo, pós-graduado em Engenharia Urbana – CREA 7704/D - CE, para questão da qual são partes a Imobiliária Júlio Ventura Ltda, sucessora da CIA JÚLIO VENTURA AGRICULTURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO, empresa privada, CNPJ 07.198.435/0001- 31, com sede nesta Capital, sito à Avenida Barão de Studart, 1670, e a Empresa CALTECH ENGENHARIA LTDA, pessoa jurídica de direito privado, CNPJ 11.325.479/0001-52, com sede no endereço Avenida Monsenhor Tabosa, preparou e vem trazer o Laudo Pericial requisitado.




ANEXOS



Memorial Descritivo correspondente a FIGURA Nº 01
LIMITES E CONFRONTAÇÕES
DESCRIÇÃO DO PERÍMETRO

Começam do ponto 01. Deste segue-se até o Ponto 02 no rumo de 71°19'21"NW, com distância de 21,80 metros (vinte e um metros e oitenta centímetros), confrontando-se com Posse de Cia. Julio Ventura. Deste, segue-se até o Ponto 03 no rumo de 64°07'54"NW, com distância de 11,06 metros (onze metros e seis centímetros), confrontando-se com Imóvel na posse de Antoinete Ribeiro Tavares e Airton Borges Martins. Deste, segue-se até o Ponto 04 no rumo de 18°33'11"NE, com distância de 20,95 metros (vinte metros e noventa e cinco centímetros), confrontando-se com Posse da Imob. Adriano Martins, em transferência p/ Maria Borges Martins. Deste, segue-se até o Ponto 05 no rumo de 64°36'49"SE, com distância de 33,00 metros (trinta e três metros), confrontando-se com Av. Historiador Raimundo Girão. Deste, segue-se até o Ponto 01 no rumo de 18°33'11"SW, com distância de 18,48 metros (dezoito metros e quarenta e oito centímetros), confrontando-se com Av. Historiador Raimundo Girão, onde teve início esta Descrição. A propriedade descrita tem a área de 662,17m2.

Fortaleza, 18 de Novembro de 2003.


⊗



Memorial Descritivo correspondente a FIGURA Nº 03
LIMITES E CONFRONTAÇÕES
DESCRIÇÃO DO PERÍMETRO

Começam do ponto 01. Deste segue-se até o Ponto 02 no rumo de 71°36'38"NW, com distância de 32,77 metros (trinta e dois metros e setenta e sete centímetros), confrontando-se com Posse de Cia. Julio Ventura e Imóvel na posse de Antoinete Ribeiro Tavares e Airton Borges Martins. Deste, segue-se até o Ponto 03 no rumo de 18°33'11"NE, com distância de 22,50 metros (vinte e dois metros e cinquenta centímetros), confrontando-se com Posse da Imob. Adriano Martins, em transferência p/ Maria Borges Martins. Deste, segue-se até o Ponto 04 no rumo de 64°36'49"SE, com distância de 33,00 metros (trinta e três metros), confrontando-se com Av. Historiador Raimundo Girão. Deste, segue-se até o Ponto 01 no rumo de 18°33'11"SW, com distância de 18,48 metros (dezoito metros e quarenta e oito centímetros), confrontando-se com Av. Historiador Raimundo Girão, onde teve início esta Descrição. A propriedade descrita tem a área de 671,37m2.

Fortaleza, 18 de Novembro de 2003.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A intervenção poluidora como atividade causadora de degradação ambiental

Laudo de Estudo com teor Pericial
sobre a intervenção poluidora como atividade causadora de
degradação ambiental na superfície
do entorno do Farol do Cabo Branco – PB


Paulo Rosa

Assistentes e Estagiários
» Silvio Veloso
» Firmino Manoel Neto
» Cristina Vivian
» Bertha Garcêz
» Liése Carneiro Sobreira
» Maria Emanuela
» Élvis Jácome
» Rogério Souto



Apresentação

O presente documento relata de forma técnica e científica os dados coletados a partir de observação com rigor sistemático. Buscou-se os metadados nas imagens do Google Earth; de ortofocarta de 1974; nas aerofotos de 1970, 1985, 1998 e, dados reais, a partir de Fotos Aéreas de Pequeno Formato: verticais e oblíquas, fotos horizontais com câmeras digitais Nikon e Olimpus, ambas com elevada resolução. Outros dados foram obtidos com utilização de GPSs, bússolas, clinômetro e outros equipamentos de coleta de dados em campo. No laboratório foram utilizados equipamentos computacionais como mesa digitalizadora, computadores de elevado desempenho, programas também de elevado desempenho: CAD, EXCELL, COREL DRAW, dentre outros sistemas de desenho convencional.

Esse rigor se refere ao raciocínio para que o nosso argumento possa esclarecer o ponto de vista encadeando de forma lógica dedutiva atenda a demanda estabelecida pela Exma Dra. Nadja Palitot. Apesar do tempo relativamente pequeno para qualquer tipo de pesquisa, porém como se tratou de uma investigação para coletar evidências de ação agressiva, foi necessário todo trabalho sistemático, pois assim se fundamenta a certeza na busca da verdade.

Apesar da solicitação da solicitante não nos solicitar uma perícia e sim um Estudo com teor Pericial, procurou-se estabelecer como premissa de que “contra os fatos não há argumento”. Pautamos-nos nessa premissa para que os fatos anunciados pudessem ser expostos por ilustrações que permitam que a leitura da solicitante tenha uma adesão firme e sem temor de engano. Pois na dedução não pode haver erro sendo que o maior erro consiste em não saber e se afirma acreditando saber.


Preâmbulo

A área que contém o cenário geográfico denominada de Cabo Branco está referenciada na constituição paraibana no “Art. 60 Ficam tombados, para fins de preservação e conservação, o Altiplano do Cabo Branco, a Ponta e a Praia do Seixas, saliências mais orientais das Américas” e no “Art. 218 - São considerados patrimônio histórico da Paraíba a Praia do Seixas e o Cabo Branco, saliência mais oriental da América”. Ainda no que se refere a Políticas Públicas, o Plano Diretor da cidade de João Pessoa denota que o Altiplano do Cabo Branco é uma zona considerada por lei como sendo de “restrições adicionais”.


Art. 26. A restrição adicional do Altiplano do Cabo Branco deve ser objeto de regulamentação especifica no Código de Zoneamento, no Código de Parcelamento do Solo e no
Código de Obras e Edificações, para permitir sua ocupação ordenada contemplando obrigatoriamente:


I
- a delimitação precisa e as formas de viabilizar a implantação do Parque Estadual do Cabo Branco - Zona Especial de Preservação;

II
- uma Densidade Bruta de ate 50 hab./ha e limitação na altura das edificações de modo a preservar paisagisticamente a falésia e a Ponta do Cabo Branco;

A restrição é um termo que denota, segundo a obra de referência: dicionário Aurélio, a ação de reduzir de limitar, daí então a Constituição paraibana afirma que deve conter um adensamento limitado, considerando que a densidade é a quantidade de indivíduos por área definida, nesse caso a lei determina que seja 50 hab/ha, ou, observando uma situação mais líquida, como 1/hab por 200m2. No entanto, sabiamente os legisladores estabeleceram como sendo 50 hab/ha conotando então que há a possibilidade da família se estabelecer no local sem que haja uma carga de pressão que possibilite a desestabilização do sistema natural ali contido.

Os conceitos contidos no Plano Diretor observam diretamente o que está denotado na Constituição como sendo a área do Cabo Branco uma área especial, pois ali está abrigado um Patrimônio Histórico do Estado da Paraíba, por isso precisa ser conservado e preservado.

Ainda tomando a obra de referência: o dicionário Aurélio; busca-se a compreensão do termo conservado que significa “que resiste à idade, ao tempo”; já o termo preservado cujo significado está contido no verbo preservar assim anuncia “...manter livre de perigo ou dano...”*.

* Dano é um termo definido no Dicionário Aurélio Buarque de Holanda como “S.m. 3 - Estrago,deterioração, danificação”. Já o Código Civil, à luz de minha interpretação, como sendo a conseqüência de um Ato Ilícito. Assim conceitua “Ato Ilícito” o art. 159 do referido Código “ Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”. Lesão, segundo a obra de referência supra citada, "S.f. (...) 3. Dano, prejuízo. Degradação (op. cit.) S.f. 2. Deterioração, desgaste, estrago".

Esse universo conceitual referido no parágrafo antecedente aponta como patrimônio a paisagem estabelecida no lugar denominado Altiplano Cabo Branco, praia e Ponta do Seixas. Ora, esses são lugares que denotam identidade por parte de indivíduos geográficos já estabelecidos, por isso há para eles uma toponímia que os identifique. Esses indivíduos em conjunto formam o que chamamos de paisagem. Esse conceito pode ser visto por dois ângulos relativamente diferentes: o cultural e o técnico-científico. O cultural, nas palavras do antropólogo Levy Strauss, é anunciado como "qualquer paisagem se apresenta a primeira vista como uma desordem imensa que nos deixa à vontade para escolhermos o sentido que quisermos dar-lhe" (Tristes trópicos. 1970: 50). No entanto sob o outro ângulo, o geógrafo J. Pierre Deffontaines assim anuncia:

Uma paisagem é uma porção perceptível a um observador onde se inscreve uma combinação de fatos visíveis e invisíveis e interações as quais, num dado momento, não percebemos senão o resultado global. (in Jean Tricart. Paisagem e Ecologia. Inter-fácies: escritos e documentos. IBILCE, 1982.).

Assim sendo temos a paisagem como conjunto de elementos que estão interligados numa dada área, sendo que essa área deverá ser vista como uma Região, haja vista ela encerrar em si mesma, elementos únicos que lhe dão identidade, logo se pode afirmar que essa área constitui uma unidade geográfica, dado a sua especialidade em relação à vizinhança.

Para elucidar o conceito de paisagem como o conjunto de elementos especiais que estão estabelecidos sobre uma área única, ou seja, uma região. Nesse sentido estabelecemos o modelo, a partir de outro cânone da geografia, A. Strahler (Geografia Física. Ed. Ômega. 1994: 39), para melhor auxiliar a tomada de decisão:


A partir da modelização teórica oriunda da visão de Strahler, fica mais nítida a leitura do que Deffontaines considerou como paisagem. Assim sendo, podemos de agora em diante, verificar que os três grandes conjuntos abióticos quando intersectados permitem a existência do conjunto VIDA. O conceito Região passa a ser uma categoria consubstanciada pela paisagem e suas nuances visíveis e invisíveis.

A identidade do lugar a partir da especialidade determinada por um dos conjuntos formadores da paisagem, nos permite ver com nitidez elementos que, para as vistas não atentas, podem ser invisíveis ou banalizadas pelo senso comum. Assim sendo, o delineamento da região por um dos conjuntos, nos permite entrar mais para interior, em busca dos elementos não visíveis, isso significa que se ultrapassa metodicamente o senso comum e o bom senso, vai-se para esse interior a partir da dedução.

O conjunto da paisagem que mais nos chama a atenção é o Relevo, mais tecnicamente a bacia hidrográfica. Esta unidade do relevo, nos permite ver com mais nitidez o cenário em que acontecem as interações que não prescindem de relações sistêmicas (Disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada in dicionário Aurélio)

Assim, os quesitos levantados pela Exma. Deputada Dra Nadja Palitot, serão averiguados a partir da bacia hidrográfica, sendo esta uma unidade topográfica que contém rede de drenagem superficial intermitente na área do entorno do farol do Cabo Branco, possibilitando a regionalização do lugar que se apresenta como área litigiosa.


Histórico

A Ponta do Cabo Branco se destaque não apenas pela sua geografia e sua proximidade com o ponto mais oriental que é a Ponta do Seixas (Fig. 01), mas é um acidente geográfico que se tornou ícone simbólico do povo paraibano e também internacional, haja vista estar em conjunto com o ponto mais oriental de todo o continente americano chegando mesmo a criação do slogan popular “onde o sol nasce primeiro” (Fig. 02).


Figura 01 – Imagem GoogleEarth identificando a Ponta do Seixas e o Farol do Cabo Branco


Figura 02 – Vista do nacer do Sol da praça de Iemanjá (Dezembro de 2003).

A passagem do campo da geografia do lugar para o campo simbólico, cria-se valor, inicialmente cultural e posterior, valor econômico. Culturalmente pode-se afirmar que se instalou no sentimento do povo através de uma construção com base na informação cênica e, outra, fundamentalmente histórica. Assim, o lugar passa a ser mítico, pois ele, o lugar em si, está se eternizando mesmo com a ação indomável do oceano, por isso surge o culto simbólico que é o da força e porque não, também o da eternidade.

O lugar, podemos falar agora como conjunto tanto a ponta do Cabo Branco como a Ponta do Seixas, pois, apesar de vizinhos tão próximos, suas estruturas geográficas são diferenciadas; o Cabo Branco está sobre o relevo dos Baixos Planaltos Costeiros e seu limiar no entorno do farol é uma encosta íngreme (Fig. 03 e 04), um penhasco, denominada como Falésia. Já a Ponta do Seixas é a área que recebe os sedimentos, ficando a poucos metros ao Sul da base da Falésia que contém o farol, essa área geograficamente tem o seu relevo denominado de planície costeira. Como podemos observar os Baixos Planaltos tem sua estrutura geológica constituída de material sedimentar em consolidação, sendo formado por várias camadas de sedimentos areno-argilosos (Fig. 05), material esse, quando não consolidado, podemos afirma que é de baixa resistência a ação das águas, ou seja, de fácil erodibilidade.


Figura 03 – Vista do perfil da Falésia a partir da praia do Seixas (Junho de 2007).


Figura 04 – Vista do perfil da Falésia a partir da geometría da encosta (1999).


Figura 05 – Estratos sedimentares que formam a estrutura dos Baixos Planaltos no Cabo Branco. Data: junho/2007.

A fragilidade desse ambiente pôde ser notada nos meses finais de 1998 e início de 1999, época que houve uma estiagem pluvial prolongada em toda a região costeira paraibana. Nessa época havia uma pista de circulação de veículos que circundava a área do farol. Por essa pista trafegava todo tipo de veículos: motos, automóveis, ônibus (turista e urbano) até caminhões de todo o gênero de tara. Nessa época, houve vários desabamentos da encosta (Fig. 06 e 07) a poucos metros do farol, o que acabou por motivar o governo local a desativa a via ao lado do farol. Dessa época em diante houve uma forte pressão popular, capitaneada pela ONG APAN (Associação Paraibana dos Amigos da Natureza) e apoiada de perto pelo Ministério Público, para que a área do entorno do farol do Cabo Branco viesse a ser motivo de maior atenção por parte da gestão municipal.


Figura 06 – Bloco de sedimentos não consolidados que desabaram na estiagem entre 1998 e 1999.


Figura 07 – Sedimentos não consolidados no desabando do topo da Falésia no período entre 1998/99.

O entendimento do gestor municipal era que deveria se fazer obras de “emparedamento” para a contenção dos possíveis desabamentos, desmoronamentos dado que a presença do mar estava cada vez mais presente, solapando a base da Falésia (Fig. 08, 09 e 10). Esse projeto não prosseguiu dado a ação efetiva tanto da APAN como também do Ministério Público.


Figura 08, 09 e 10 (respectivamente) – Coqueiro na praia do Seixas abatido pela ação marinha entre 1998 e 1999.


Do objetivo da pericia

Anunciar se houve ou não agressão (por definição, segundo a obra de referência já citada e a conduta caracterizada por intuito destrutivo) ao meio ambiente por parte do empreendimento que está sendo implantado no Cabo Branco, enunciar os elementos a partir de vestígios (que servirão como prova do fato em litígio) que estão sendo destruídos no meio ambiente pela ação do empreendimento que está sendo implantado e a extensão dos mesmos.


Das vistorias

O caráter da inspeção não foi judicial sobre o lugar o qual existe litígio, entende-se litígio como sendo uma demanda oriunda do poder legislativo do Estado da Paraíba, especificamente da Sra. Dra. Deputada Nadja Palitot.

Foram necessária várias inspeções ao lugar em que está acontecendo o empreendimento gerador dessa demanda. A primeira foi uma inspeção preliminar para a notificação do fato em si; as demais inspeções tiveram natureza técnica em busca de registro de fatos comprobatórios.


Das considerações técnico-periciais e discussão legal

Como foi anunciado o fato está se dando sobre um lugar que contém uma paisagem protegida pela lei máxima estadual, a Constituição do Estado; e outras instruções normativas também procuram proteger a paisagem e o lugar em si como é o caso do Decreto Estadual nº 9.482/1982 (dispõe sobre o tombamento da área destinada ao Parque do Cabo Branco) e do Plano Diretor da cidade de João Pessoa.

Como já foi apresentado o conceito de paisagem sendo a resultante de diversos conjuntos que estão não apenas interligados mas fundamentalmente intersectados um ao outro, permitindo assim o surgimento e a dinâmica da vida sobre o planeta e, conseqüentemente sobre o lugar.

Para o procedimento de um raciocínio mais adequado ao fato em litígio, tornou-se necessário a utilização da dedução da categoria Região, sendo que essa se traduz por conter a unidade geográfica passível de ser observada e inventariada. Nesse sentido a Região que está sobre o Cabo Branco onde o fato em litígio está sendo consubstanciado pela ação predatória da paisagem, nesse caso essa Região contém uma micro bacia hidrográfica, cuja rede de drenagem superficial é intermitente, ou seja, oriunda dos períodos de maior precipitação pluvial. Partindo-se então da Região como a generalidade cuja unidade geográfica está contemplada pela micro bacia com rede hidrográfica (Fig. 11) já estabelecida, isso está denotado pelos efeitos do escavamento ocorrido ao longo do tempo naquela superfície (Ver Croquis referentes às figuras. 12A, 12B e 12C).


Figura 11 – Identificação da área.


Figura 12A – Croquis denotando o trabalho lento da água na modelagem do terreno.


Figura 12B – Diagrama denotando o comportamento do relevo diante da ação lenta da águapor conta da vegetação.


Figura 12C – Croqui anunciando a metragem do canal na foz junto à praia.

O empreendimento que está sendo estabelecido está alterando por completo a dinâmica da drenagem no lugar (Fig. 13 e 13A), haja vista que a paisagem natural tem uma dinâmica que não apenas se estabelece no lugar e sim ultrapassa seus limiares indo alimentar com matéria e energia a vizinhança.


Figura 13 – Curso d’água superficial. Junho de 2007.


Figura 13A – O empreendimento sendo estabelecido.

Como já vimos no modelo estabelecido para representar a dinâmica da paisagem, esta é a relação de conjuntos que se intersectam de forma sistêmica, onde há troca permanente de matéria e energia, nesse sentido deve-se observar que aquela paisagem recebe matéria e energia:

a) da situação climática que se põe sobre o lugar. O clima desse lugar recebe as influências diretas do oceano; principalmente no que diz respeito ao vento e a precipitação;

b) a hidrografia, essa está contida fundamentalmente na micro bacia, lugar por onde há a drenagem superficial de forma intermitente que se escoa dos pontos mais elevados para os de menor energia, ou seja, vai direto para a planície costeira, desaguando diretamente no mar;

c) o relevo numa visão macro deve ser visto como Planalto, pois perde material em função das ações climáticas para os lugares de menor energia, nesse caso para a planície costeira. As declividades no lugar, quando olhadas por instrumental computacional nos dá outra conotação, haja vista, que a transformação da imagem da ortofocarta com as curvas de nível em destaque, nos apresenta um relevo com rugosidade destacada, com vales cuja declividade está bem nítida assim como elevações. Após a leitura com instrumental computacional o modelado aparece destacando os elementos componentes do relevo (Fig. 14 e 14A);

d) a biota, o destaque será para a vegetação, pois, apesar de já ter sido profundamente alterada a população vegetal do lugar, mas sem sombra de dúvida, mesmo sendo ela alterada podemos afirmar que ainda é de origem natural, oriunda talvez, de uma quarta ou quinta geração da população original.


Figura 14 – Curvas de nivel referentes à Ponta do Cabo Branco o que permite a modelagem numérica do terreno.


Figura 14A – Modelo numérico de terreno gerado a partir de curvas de nível da ortofocarta escala de 1:2000 de 1974.

A partir da anunciação desses quatro grandes conjuntos que forma a paisagem, vamos tecer a sua relação no viés a partir da vegetação, tomando essa população como elemento importante para não apenas conter a erosão modeladora do relevo, mas também como elemento fundamental para a contenção da água no solo, no sub-solo e conseqüentemente como alimentadora do aqüífero. A vegetação local é denominada de sub-caducifólia ombrófila, ou seja, é uma vegetação que recebe a precipitação e nos períodos pós verão, perdem parte de suas folhas, isso significa que essa folhagem irá recobrir o assoalho florestal, formando a serrapilheira** em que uma das funções precípuas acaba por permitir que a água percole de forma vertical, indo para os níveis inferiores do solo. Essa mesma serrapilheira, dentre outras funções, a partir da ação dos decompositores quebram as estruturas do material depositado, o que inevitavelmente acaba por servir de matéria e energia para outras espécies, tanto no lugar como para a vizinhança.

** Consiste de restos de vegetação, como folhas, ramos, caules e cascas de frutos em diferentes estágios de decomposição, bem como de animais, que forma uma camada ou cobertura sobre o solo de uma floresta.(http://pt.wikipedia.org/wiki/Serrapilheira)

A importância da serrapilheira com o lugar e com a vizinhança é sistêmica, considerando que as regiões são unidades que estão sempre interligadas (e não isoladas) para que haja troca de matéria e energia. Nesse sentido, podemos ver que parte da matéria produzida nesse lugar é carreada para a vizinhança, especialmente via rede de drenagem.

A drenagem transportando o material para o mar, esse material serve à cadeia alimentar desse novo lugar. Esse novo lugar em que a matéria chega, no caso do entorno do Cabo Branco, está repleto de recifes arenosos e coralíneos (Fig. 15). Esse é um ambiente profundamente sensível e que abriga populações distintas, tornando-se assim um habitat frágil e de relevância para a cadeia alimentar dessa população. Com a interrupção desse material, inevitavelmente ter-se-á uma quebra na cadeia alimentar dessa população residente nos recifes, ferindo assim profundamente o andamento espontâneo da vida nesse lugar.


Figura 15 – Recifes em frente ao Cabo Branco.


Da dinâmica do evento

O evento em si, já está se constituindo em fato.

Para a implantação do empreendimento da envergadura do que está sendo estabelecido em ritmo acelerado, foi necessária, num primeiro momento, a retirada totalmente da cobertura vegetal da área, incluindo, é claro, a subtração da serrapilheira; num outro momento, foi a terraplanagem, nesse caso foi o nivelamento da área. Com a terraplanagem houve a supressão da rugosidade do relevo e das vertentes (Fig. 16) que davam sinuosidade ao perfil planáltico; noutro momento, com o advento da terraplanagem, foi necessária a implantação de sistema de canalização dos cursos d’água naturais (Fig. 17) no intuito do escoamento d’água, cujo volume será muito maior do que anteriormente, pois, a partir do momento da implantação do empreendimento já se começa um novo tipo de agressão à vizinhança, o volume d’água aumentando irá acelerar a dinâmica ambiental na vizinhança (Fig. 18, 19, 20, 21 e 22).


Figura 16 – Nivelamento da área suprimindo a rugosidade das vertentes que davam o perfil sinuoso ao perfil planáltico.


Figura 17 – Implantação de sistema de canalização dos cursos d’água naturais.


Figura 18, 19, (respectivamente, acima) e 20 e 21 (respectivamente, abaixo)


Figura 22 – Sedimentos oriundos do empreendimento adentrando ao mar. Data: 31/05/2007


Conclusão

Não resta dúvida que a paisagem teve seu sistema totalmente alterado, e quando se mexe com o sistema natural não se sabe o que irá ocorrer no futuro, ainda mais quando o sistema é sensível e, os elos mais frágeis da cadeia irão se romper quando a tensão for aumentada. Pelo que se verificou em campo é que o corpo técnico que está implementando a obra não observou de forma atenta tanto a paisagem como também a legislação que protege o lugar, pelo visto, não houve um Estudo de Impacto Ambiental que trouxesse ao público uma discussão em que a sociedade se responsabilizaria com a natureza do lugar e seu entorno imediato.

Num outro patamar a aparente contenção do sistema modelador do relevo, que é a erosão, isso na superfície onde ocorre o empreendimento, não implica redução da ação erosiva no sistema vizinho, onde a água irá chegar. A ação mais nociva do empreendimento, com a retirada da população vegetal, é inevitavelmente a obstrução da percolação perpendicular da água para os níveis inferiores do solo, isso decorre da forte impermeabilização que irá (já em andamento) ocorrer na área, essa situação irá alterar a dinâmica marinha que recebe (ia) matéria (nutrientes e água) numa dosagem equilibrada pela dinâmica natural do ambiente, no entanto de agora em diante com a impermeabilização o volume de água não mais trará nutrientes naturais e pela extensão da penetração da água no mar podemos ver que é uma influência de elevada envergadura.


Das respostas aos quesitos

Abaixo estão descritos os quesitos formulados pela Exma. Deputada Dra Nadja Palitot e logo a seguir as respostas a cada um deles:

Quesito 1 - Houve agressão ao meio ambiente no local em que está ocorrendo a ocupação?

Resposta 1: Sim houve agressão no sentido que se quebrou o sistema ambiental referente à drenagem, a vegetação, ao relevo e a interrupção de matéria para o sistema vizinho.

Quesito 2 - Em caso positivo, quais são essas agressões?

Resposta 2: A região que contém a micro bacia hidrográfica foi bastante danificada com a terraplanagem. A hidrografia foi alterada, sendo alterada também o volume e o fluxo das águas, o lenços freático será alterado com a impermeabilização do lugar. A vegetação foi suprimida da área, assim como todo o sistema onde ocorre a serrapilheira.

Quesito 3 - Em caso de constatação, qual a extensão desses danos/

Resposta 3: Num primeiro momento o que põe em destaque é o fluxo e volume hídrico que irá atuar diretamente no sistema vizinho, os recifes marinho imediatamente a frente do Cabo Branco. O lenço freático será alterado, logo, o solo e o subsolo irão perder a umidade que age como elemento agregador das partículas sedimentares (areia e argila) dessa área do Planalto. A retirada da vegetação até as proximidades da Falésia na área mais ao Norte irá ampliar a fragilidade do ambiente. A carga de pressão que será proporcionada pelo tráfego irá abalar a estrutura nessa área mais ao Norte a cumeada da Falésia.

Quesito 4 - Ainda em se constatando o dano agressivo, quais as medidas mitigadoras?

Resposta 3: A área, dado a fragilidade de sua paisagem, não permite edificação que sobrecarregue o sistema natural, o máximo que ela, a paisagem permite, seria uma ocupação mais adequada ao próprio sistema ambiental, com baixa quantidade de solo impermeabilizado, mínima alteração na população vegetal e um EIA/RIMA com técnicos e cientistas que já desenvolvem trabalhos e pesquisas no lugar.




Este estudo foi elaborado em 27/06/2007 de acordo com a requisição abaixo:

Documento resquisitando o estudo


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Sinistro ocorrido em edificação residencial

LAUDO PERICIAL: sinistro ocorrido em edificação residencial

Paulo Rosa
Maria Barros
Conrad Rosa
Pablo Rosa



PREÂMBULO

A Ilmª Prof. Renata Paes Barros Câmara, face ao ocorrido na madrugada entre os dias 22 e 23 de abril (de sábado para domingo) de 2006, quando sua residência foi acometida de um sinistro (FIG 01 e 02) como resultado da magnitude da precipitação abundante que houve na referida data, nos contatou imediatamente a fim de compreender o motivo e as causas que levaram a esse sinistro que foi amplamente divulgado pela imprensa local em nível de TV, rádio e jornais de circulação estadual. A carta da Profª Renata datada de 20 de maio de 2006 nos solicita "a leitura técnica com rigor pericial, do comportamento (da paisagem) geográfico(a) no tocante principalmente ao relevo, vegetação e escoamento superficial oriundo das precipitações".



Figura 01


Figura 02



HISTÓRICO

A residência da Prof. Renata está localizada na Rua Joaquim Francisco Veloso Galvão, nº1569 do Bairro Pedro Gondim da cidade de João Pessoa, PB (FIG 03). A construção da residência ocorreu na década de noventa. Na época de sua construção, já haviam outras residências nas proximidades, tendo o loteamento sido aprovado pela Prefeitura municipal.



Figura 03


Nesse período de construção foi observada a drenagem do terreno e como forma de proteção foi construída uma vala nas proximidades do muro visando a drenagem da água do terreno, ainda baldio, para outra rua de forma que alcançasse seu curso indo desaguar na Lagoa do Boi Só. Ao comprar a referida casa em 2003, a mesma passou pelo crivo dos técnicos engenheiros da Caixa Econômica Federal para que o FGTS da atual proprietária fosse utilizado na aquisição do imóvel. Em 2005, visando uma maior segurança para o imóvel, a proprietária procedeu a uma reforma, quando reforçou as estruturas dos muros para que os mesmos pudessem ser elevados. O reforço do muro também levou em consideração a enxurrada que descia no período chuvoso de forma que o mesmo foi reforçado na sua base de sustentação, recomendada pelo engenheiro Eduardo Alves de Vasconcelos, CREA 7086–D/PB, visando a proteção da casa.

Residindo na casa desde o início de 2003 a família presenciou vários invernos com índices elevados de precipitação como ocorrido em 2004 mas no entanto não haviam tido problemas com a água pluvial, apenas pequenos transtornos logo resolvidos a partir de um terraceamento do terreno baldio que fica ao lado da casa, que constitui o lote de esquina. Entretanto, em início de 2006 a Prefeitura Municipal de João Pessoa, através da Secretaria de Infraestrutura realizou uma "limpeza" do lote (FIG 04), o que acabou desfazendo o desvio da água feito, através das curvas de nível, pelos moradores. Vale ressaltar que os moradores que fizeram o terraceamento em nome do Sr Evandro Eloy de Almeida já haviam requerido à Prefeitura providências quanto a problemas causados pelas chuvas nas casas decorrentes da falta de drenagem, conforme documento protocolado na Secretaria de Infraestrutura em agosto de 2005.



Figura 04


Como agravante um cidadão montou uma barraca de churrasquinho fechando a Rua José Faustino Cavalcanti (FIG 05) impedindo o escoamento das águas provenientes das várias ruas que deságuam no local para a Rua Joaquim Francisco Veloso Galvão caminho adequado para o mesmo. Para ocupar esta área o mesmo cidadão procedeu a um aterramento com entulhos que devido a alta precipitação e conseqüente enxurrada desceram bloqueando a passagem anteriormente feita pela proprietária para o escoamento da enxurrada, transformando o muro da citada residência em uma verdadeira barragem.



Figura 05


O fato é que na madrugada entre os dias 22 e 23 de abril (de sábado para domingo) de 2006 houve intensa precipitação pluvial e acumulação de água na base do muro que acarretou na derrubada dos muros e inundação da casa, trazendo grandes prejuízos financeiros e emocionais para a família que viveu o drama.



DO OBJETIVO PERICIAL

O presente laudo teve por objetivo realizar uma leitura regional da paisagem, cuja casa da Profª Renata Paes de Barros Câmara está localizada, visando identificar os possíveis elementos que contribuíram significativamente para a ocorrência do sinistro.



DOS EXAMES

Da descrição do local

Para melhor entendimento do ocorrido é necessário compreender de forma dedutiva o espaço regional representado pela bacia hidrográfica onde ocorreu o sinistro (FIG. 06). Toma-se como sinistro o evento que provocou danos à edificação sendo que esta tem como função o abrigo e a segurança familiar da solicitante.


Figura 06


A microbacia hidrográfica já profundamente antropizada por processos de impermeabilização oriundas das edificações públicas e privadas, cujo "gargalo" dessa microbacia fica exatamente onde se encontra a residência que ofereceu um barramento impedindo a passagem da água (FIG. 07). Devemos aqui anunciar que dentro da geomorfologia (disciplina científica que estuda o modelado terrestre), a bacia hidrográfica é uma unidade geográfica cujo relevo que é comandado pela diferença entre os níveis mais elevados em relação aos mais baixos, e a bacia, cuja drenagem busca os níveis de menos energia, logo ela (a microbacia) sempre orienta essa drenagem para um curso d'água principal, que no caso da área do acidente foi o afunilamento dado pelas edificações residenciais e impediram o fluxo do curso.



Figura 07


Dos vestígios materiais

Nas inspeções feitas no local, verificou-se os sinais (marcas) da água acumulada no muro adjacente ao que foi derrubado pela enxurrada, bem como os entulhos e metralhas carregados do terreno baldio carregados pela força da água que entupiram a passagem da água pela canaleta. A vegetação (plantação de milho) do terreno do vizinho do lado esquerdo da casa rebaixada ao chão denota a força da tromba d'água ao romper os muros (FIG. 08). Partes dos muros foram distribuídos por todo o trajeto que a água passou, o que denota a força da enxurrada.



Figura 08


Do exame relativo à vizinhança

A observação da vizinhança do local em estudo revelou que o que o canal principal de transporte das águas pluviais foi interrompido pelas edificações (FIG. 06 e 07), pois a chuva quando precipitada numa bacia hidrográfica busca os níveis de menor energia. Ainda nessas mesmas Figuras fica também exposta a área de menor energia que é estabelecida como sendo uma área bastante ocupada por vegetação mais densa, que desse ponto em diante as águas descem com menor velocidade, pois o nível topográfico já nos permite indicar que seja uma área de acumulação de sedimentos por isso a vegetação é densa. Porém ao ser traçado o perímetro da provável microbacia hidrográfica na Figura 06, não foi considerada de maneira mais ampla, a área referente à quadra em que se encontra sem edificações, ou seja, apenas cinco edificações compõem o conjunto de edificações nessa quadra, contando com a edificação que sofreu o sinistro.


Dos exames laboratoriais

Em laboratório foi elaborado um MNT - Modelo Numérico de Terreno (FIG 09 e 10) a partir de Ortofotocarta na escala 1:2000 de 1978 com eqüidistância entre as curvas de nível de um metro. Esse modelo visou a representação e melhor visualização da bacia hidrográfica em que está localizada a residência. Observa-se a partir da Figura 09 que a residência ocupa uma área de vertente entre as cotas de 20 e 22 metros acima do nível do mar. Já a Figura 10 denota o direcionamento do escoamento superficial.



Figura 09



Figura 10



DAS CONSIDERAÇÕES TÉCNICO-PERICIAIS

Numa primeira observação o que ficou nítido foi a presença do elemento climático pluviosidade, que no dia 22 de abril de 2006 se apresentou com elevada magnitude, visto que a concentração da precipitação no final da madrugada (dia 23 de abril) e início da manhã (informações orais fornecidas pelos moradores vizinhos) foi de elevada intensidade. A precipitação no intervalo de doze horas foi acumulado, concentrando-se em um volume de 43mm (dados do LES) o que inevitavelmente resulta em se estabelecer uma enxurrada, visto que o relevo na área é inclinado permitindo a ocorrência de concentração torrencial (FIG. 11).


Figura 11


Nesse primeiro momento, é de relevância anunciar os conceitos que representam fenômenos climáticos como pluviosidade, e aqueles decorrentes tanto da precipitação como também do relevo como enxurrada e torrente. No tocante ao relevo faz-se necessário destacar outros elementos que aí estão contidos, pois o relevo assim como o clima, ou mesmo a hidrografia e a comunidade biótica, podendo ser vistos como conjuntos individuais, mas acabam por interagir de forma sistêmica. Um agindo sobre o(s) outro(s), mantendo o dinamismo que há sobre a superfície terrestre.

O relevo é a geometria da superfície terrestre podendo ser rugosa ou de forma plana, assim sendo esses são conceitos que representam desníveis da linha de horizonte. Os elementos que constituem o relevo numa escala maior e que mais vem interessar para o fato ocorrido são as vertentes, vales que estão inseridos na bacia hidrográfica; pontos esses que de uma forma ou de outra dizem respeito a maior ou menor concentração de energia; sendo também pontos dissipadores dessa energia.

Diante das provas fotográficas, podemos afirmar que a interrupção do canal de escoamento pluvial foi ocasionado pelas edificações residenciais, pois com o calçamento da rua Coronel Francisco Lopes Filho, a água pluvial deveria ser redirecionada para a rua Prof. Joaquim Francisco Veloso Galvão, no entanto o meio-fio foi retirado (FIG 12) permitindo que a enxurrada torrencial mantivesse o rumo e a direção da época antecedente ao loteamento, ou seja, o curso natural do escoamento superficial. A rua José Faustino Cavalcanti foi sobreposta por uma edificação comercial o que também corroborou para a manutenção do rumo e direção da enxurrada torrencial.



Figura 12



CONCLUSÃO

A partir do aceite pela prefeitura municipal no que se refere à implantação e implementação do parcelamento do solo urbano para fins de loteamentos e conseqüentemente a construção de edificações, esse fato deve-se à observação do comportamento dos elementos naturais para que seja praticamente anulada qualquer possibilidade de desastres por conta de condições técnicas, no entanto, considerando que:


1. a edificação em tela, está regulamentada pela prefeitura e com seus impostos em dia;

2. a limpeza do terreno não edificado retirando a vegetação que sempre age como um dissipador de energia;

3. a não observação da retirada da edificação referente ao meio fio que interrompia a direção e o rumo das águas pluviais, dando-lhe nova direção para a avenida Espírito Santo;

4. a negligência sobre a ocupação irregular da edificação comercial que superpôs a continuação da rua José Faustino Cavalcanti;

5. a residência sinistrada não tinha a função de conter ou dissipar a energia pluvial.


Retira toda e qualquer responsabilidade dos proprietários da residência no ônus gerado pelo desastre que provocou danos materiais e psicológicos nos moradores da residência e na vizinhança.